Cuatrogatos revista de literatura infantil   n° 9, septiembre 2002
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Óleo de Alexis Lago. 
 
  Sylvia Orthof: 
o bom humor na literatura infantil brasileira  
Alice Áurea Penteado Martha 
 

Quando se pensa em cômico na literatura infantil brasileira, imediatamente surgem nomes como os de Monteiro Lobato, Ziraldo, Elvira Vigna e Sylvia Orthof, entre outros, que veiculam em suas obras idéias engraçadas e bem humoradas. Em Sylvia Orthof, destaca-se a persistência com que se vale de recursos desencadeadores do riso para recriar situações inusitadas e absurdas que não só divertem o leitor mas também o levam a refletir sobre a realidade que o circunda. 

Sylvia Orthof (1932-1997), filha de judeus austríacos, nasceu no Rio de Janeiro e chegou à produção para crianças a partir do teatro. Escritora e teatróloga, recebeu vários prêmios por seus trabalhos: Prêmio Melhor Programa Infantil com Teatro do Candanguinho, da TV Brasília; prêmios Molière da Air France e Mambembe com a peça A viagem de um barquinho; prêmio Altamente recomendável para crianças, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; prêmio Jabuti de Literatura Infantil, entre outros. 

 

Desde os títulos das obras, almejando estabelecer entre o receptor e o texto uma relação prazerosa de cumplicidade, a escritora indicia as brincadeiras contidas no interior de suas histórias, como se pode observar em Bruzundanga da Silva, A Barriga de H. Linha, Saracotico no céu, A limpeza de Teresa, Fraca fracola, galinha d'angola, As aventuras da família Repinica, Pirraça que passa, passa..., O sapato que miava, Uxa, ora fada, ora bruxa, A família Eco-Eco, Maria vai-com-as-outras e A velhota cambalhota, para citar apenas algumas. Instigado pelos jogos sonoros, pelos contrastes semânticos, pelo inesperado e graça das situações propostas já no título dos livros, o leitor sente-se atraído a decifrar seus mistérios. Também as ilustrações, sejam os rabiscos da própria escritora, sejam os desenhos de Tato ou do filho Gê (ilustradores mais freqüentes), concorrem para enfatizar os traços cômicos e jocosos de seus textos. 

 

Ressalta-se a linguagem lúdica, irreverente e potencialmente ambígua com que a escritora marca sua produção, utilizando instrumentos lingüísticos da comicidade, tais como os trocadilhos, os paradoxos, as tiradas, a repetição e a ironia. Em Fraca fracola, galinha d'angola, por exemplo, no trecho em que a personagem foge do médico que a quer tratar, dizendo "–Socorro, socorro! Se eu ficar sem doença... eu juro que morro! Socorro! Socorro!", o paradoxo manifesta-se pela junção de idéias que se excluem mutuamente. Ao brincar com a construção da linguagem, valoriza a sonoridade, o ritmo e a rima, em estruturações inusitadas, reinventando formas de manifestação do discurso, como se vê em No fundo do fundo-fundo lá vai o atu-Raimundo: 

    Vem uma senhora baiana vendendo cana caiana. Vem um ministro sinistro. Vem um francês da Inglaterra que viajava longe da sua terra. Vem um general, montado num cavalo de pau. Vem uma mulher implicante, brigando com o elefante. 
Além dos jogos sonoros, do paralelismo da construção (Vem um/ Vem um...) e do paradoxo "francês da Inglaterra", o lúdico ganha força com o destronamento da imagem do general, montado no cavalo de pau, recurso cômico por excelência, uma vez que carnavaliza e destrói o impacto grandioso da figura do militar. Em Maria-vai-com-as-outras, o clichê que constitui o título é indiciador do comportamento da personagem e é‚ por si só, risível, mas é a repetição o recurso que garante o tom engraçado da narrativa: As ovelhas iam pra baixo. Maria ia pra baixo / As ovelhas iam pra cima. Maria ia pra cima. Ao final da narrativa, a inusitada atitude da ovelha causa estranhamento no espírito do leitor, provocando o riso: ao chegar sua vez de pular do Corcovado, quebrar o pé e chorar mé, como vinham fazendo as demais, Maria "deu uma requebrada, entrou num restaurante e 
comeu uma feijoada". 

O levantamento dos instrumentos lingüísticos da comicidade revela o exercício de uma sátira sutil, onde é possível observar a crítica a certos exageros de comportamento, na atuação francamente debochada de personagens como Teresa, com mania de limpeza, a hipocondríaca Madame Galinha D'Angola, a indecisa Maria, que sempre vai-com-as-outras, mas acaba aprendendo a tomar suas próprias decisões, a volúvel e atrapalhada Uxa, ora fada, ora bruxa, tão parecida com muita gente, ou ainda, o emotivo garçom Joaquim, apaixonado por Eufrásia, a mesa de botequim. 

Outro traço marcante da obra da escritora é o uso da paródia, uma forma literária que repete e nega, ao mesmo tempo, o texto que imita, provocando a tensão cômica. Elementos da paródia ocorrem em narrativas que recuperam os contos de fadas como, por exemplo, Ervilínea e o princês, Uxa, ora fada, ora bruxa e Manual de boas maneiras das fadas, entre outras. 

Embora a estrutura dos textos de Sylvia Orthof privilegie, freqüentemente, o lúdico, o nonsense, o absurdo e o grotesco, aparentemente sem compromisso com a reflexão, suas narrativas acabam problematizando questões com as quais a criança e o adolescente, seus leitores em potencial, se defrontam no dia-a-dia. Desse modo, pela brincadeira, pela imaginação, os leitores podem retornar à realidade com uma visão mais questionadora. 
 
Alice Áurea Penteado, escritor cubano, ..
 

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