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Equilibrio de las horas
Óleo de Alexis Lago. |
Sylvia
Orthof:
o bom humor na literatura infantil brasileira Alice Áurea Penteado Martha Quando se pensa em cômico na literatura infantil brasileira, imediatamente surgem nomes como os de Monteiro Lobato, Ziraldo, Elvira Vigna e Sylvia Orthof, entre outros, que veiculam em suas obras idéias engraçadas e bem humoradas. Em Sylvia Orthof, destaca-se a persistência com que se vale de recursos desencadeadores do riso para recriar situações inusitadas e absurdas que não só divertem o leitor mas também o levam a refletir sobre a realidade que o circunda. Sylvia Orthof (1932-1997), filha de judeus austríacos, nasceu no Rio de Janeiro e chegou à produção para crianças a partir do teatro. Escritora e teatróloga, recebeu vários prêmios por seus trabalhos: Prêmio Melhor Programa Infantil com Teatro do Candanguinho, da TV Brasília; prêmios Molière da Air France e Mambembe com a peça A viagem de um barquinho; prêmio Altamente recomendável para crianças, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; prêmio Jabuti de Literatura Infantil, entre outros.
Desde os títulos das obras, almejando estabelecer entre o receptor e o texto uma relação prazerosa de cumplicidade, a escritora indicia as brincadeiras contidas no interior de suas histórias, como se pode observar em Bruzundanga da Silva, A Barriga de H. Linha, Saracotico no céu, A limpeza de Teresa, Fraca fracola, galinha d'angola, As aventuras da família Repinica, Pirraça que passa, passa..., O sapato que miava, Uxa, ora fada, ora bruxa, A família Eco-Eco, Maria vai-com-as-outras e A velhota cambalhota, para citar apenas algumas. Instigado pelos jogos sonoros, pelos contrastes semânticos, pelo inesperado e graça das situações propostas já no título dos livros, o leitor sente-se atraído a decifrar seus mistérios. Também as ilustrações, sejam os rabiscos da própria escritora, sejam os desenhos de Tato ou do filho Gê (ilustradores mais freqüentes), concorrem para enfatizar os traços cômicos e jocosos de seus textos.
Ressalta-se a linguagem lúdica, irreverente e potencialmente ambígua com que a escritora marca sua produção, utilizando instrumentos lingüísticos da comicidade, tais como os trocadilhos, os paradoxos, as tiradas, a repetição e a ironia. Em Fraca fracola, galinha d'angola, por exemplo, no trecho em que a personagem foge do médico que a quer tratar, dizendo "–Socorro, socorro! Se eu ficar sem doença... eu juro que morro! Socorro! Socorro!", o paradoxo manifesta-se pela junção de idéias que se excluem mutuamente. Ao brincar com a construção da linguagem, valoriza a sonoridade, o ritmo e a rima, em estruturações inusitadas, reinventando formas de manifestação do discurso, como se vê em No fundo do fundo-fundo lá vai o atu-Raimundo:
comeu uma feijoada". O levantamento dos instrumentos lingüísticos da comicidade revela o exercício de uma sátira sutil, onde é possível observar a crítica a certos exageros de comportamento, na atuação francamente debochada de personagens como Teresa, com mania de limpeza, a hipocondríaca Madame Galinha D'Angola, a indecisa Maria, que sempre vai-com-as-outras, mas acaba aprendendo a tomar suas próprias decisões, a volúvel e atrapalhada Uxa, ora fada, ora bruxa, tão parecida com muita gente, ou ainda, o emotivo garçom Joaquim, apaixonado por Eufrásia, a mesa de botequim. Outro traço marcante da obra da escritora é o uso da paródia, uma forma literária que repete e nega, ao mesmo tempo, o texto que imita, provocando a tensão cômica. Elementos da paródia ocorrem em narrativas que recuperam os contos de fadas como, por exemplo, Ervilínea e o princês, Uxa, ora fada, ora bruxa e Manual de boas maneiras das fadas, entre outras. Embora a estrutura dos textos de Sylvia Orthof privilegie, freqüentemente,
o lúdico, o nonsense, o absurdo e o grotesco, aparentemente sem
compromisso com a reflexão, suas narrativas acabam problematizando
questões com as quais a criança e o adolescente, seus leitores
em potencial, se defrontam no dia-a-dia. Desse modo, pela brincadeira,
pela imaginação, os leitores podem retornar à realidade
com uma visão mais questionadora.
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