Moteiro Lobato. |
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Monteiro
Lobato e as fábulas: adaptação à brasileira
Alice Áurea
Penteado Martha
O intuito neste texto é o de tecermos alguns
comentários acerca de aspectos inovadores da literatura de Monteiro
Lobato para crianças, tratando, em especial, da importância
da fábula em suas produções e do modo como o escritor
adaptou o gênero à recepção dos pequenos leitores.
Falar dos traços renovadores da obra lobatiana nunca é demais,
notadamente, no caso de sua produção infantil, pois, como
sabemos, no final do século XIX e nas primeiras décadas deste
que se finda, a literatura brasileira destinada à infância
era totalmente dependente da européia e, o que é mais relevante
e problemático, responsável pela difusão de uma visão
conservadora de seus receptores e absolutamente preocupada em veicular
noções didáticas e pedagógicas, fossem elas
ligadas a questões religiosas, morais, educacionais ou de civismo.
Mesmo antes da publicação de A menina do Narizinho
arrebitado, Lobato manifestava sua preocupação com as
leituras destinadas às crianças,
arquitetando, inclusive, um modo diferente de levar a fantasia aos
pequenos
leitores, posicionando-se decisivamente contra o pensamento literário
da época. Se, por exemplo, em 1912, Francisca Júlia e Júlio
César da Silva escreviam no prefácio de seu livro, Alma
infantil, que nenhum dos textos apresentados ali era supérfluo,
já que todos continham além de um flagrante interesse anedótico,
uma edificante lição de moral e concluíam que o livro
satisfazia a todas as exigências, pois, além de didático,
era, ao mesmo tempo, uma obra de arte, Lobato, por sua vez, discordava
de semelhante postura. Em correspondência a Godofredo Rangel, datada
de 1916, o escritor relatava suas inquietações literárias,
revelando um pensamento extremamente arrojado para a época:
Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional
as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo
nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me da atenção
curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha lhes
conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos
amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à
moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente
para ir-se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão.
Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos,
se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. (Lobato, 1972,
p.245-46)
Suas palavras ao amigo Godofredo Rangel indicam uma consciência atenta
aos interesses e necessidades dos pequenos leitores. Cioso da necessidade
de adaptação, antecipa, na produção infantil,
o processo antropofágico que
caracterizaria mais tarde o Modernismo brasileiro:
As fábulas em português que conheço, em geral traduções
de La Fontaine, são pequenas moitas de amora no mato – espinhentas
e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler?
Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura
que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre,
isto é habilidade por talento, ando com idéia de iniciar
a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura
infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos.
Mais tarde só poderei dar-lhes o Coração de
Amicis – um livro tendente a formar italianinhos... (Lobato, 1972,
p. 246)
Como podemos notar, suas preocupações com a leitura da garotada
começam em casa, mas não se esgotam aí e vão,
depois, muito além do plano de adaptação das fábulas.
Em 1921, em A onda verde: jornalismo, livro publicado pela Editora
Monteiro Lobato e Cia, a partir da recolha de artigos, ensaios e crônicas
em jornais e revistas, o escritor aborda também aspectos relativos
à leitura, procurando explicar a aversão dos brasileiros
pelos livros. Trata acidamente do que denomina de uniformização
dos cérebros, pois não se respeita a individualidade ou o
gosto pessoal: a leitura de um poeta, de um romancista ou de um filósofo,
no Brasil de então, segundo ele, é questão de moda.
A seleção do repertório de leitura se dá pelos
mesmos critérios com que as pessoas escolhem gravatas ou chapéus.
Entretanto, Lobato discorda em gênero e grau com essa postura, como
se pode observar pelo olhar crítico que o escritor lança
sobre a função da leitura na escola:
O menino aprende a ler na escola e lê em aula, à força,
os horrorosos livros de leituras didáticas que os industriais do
gênero impingem nos governos. Coisas soporíferas, leituras
cívicas, fastidiosas patriotices. Tiradentes, bandeirantes, Henrique
Dias, etc. Aprende assim a detestar a pátria, sinônimo de
seca, e a considerar a leitura como um instrumento de suplício.
(Lobato, 1969, p. 84)
E, da idéia passa à ação, publicando, em 1921,
Narizinho Arrebitado
(Segundo livro de leitura para uso das escolas primárias), livro
com o qual
pretende modificar o que considera como tortura das crianças
na escola e, em 1922, as Fábulas, pensadas e trabalhadas
conforme relatara ao amigo
Godofredo Rangel, entre tantas outras obras a partir de então.
Em um plano geral e sumariando o pensamento de estudiosos de Lobato,
especialmente, Lígia Cadermatori (1982), Regina Zilberman (1982),
Marisa
Lajolo (1983), Ana Maria Filipouski (1983), o ideal reformador do escritor,
latente em suas manifestações acerca da leitura oferecida
às crianças,
concretiza-se, notadamente em produções de cunho ficcional,
pela valorização da voz e da visão infantis, pelo
desgaste das velhas fórmulas do conto infantil bem como pelo interesse
em divertir e não em transmitir conceitos pedagógicos e moralizadores
e que pode ser observado tanto no plano retórico como no ideológico.
No primeiro, o retórico, a renovação pode ser observada
pela preocupação em despir a língua dos rebuscamentos
literários; pela valorização da linguagem afetiva
e da sintaxe proposta pela oralidade; pelo emprego da linguagem infantil
como recurso para suplantar a elegância da frase literária;
pela recuperação de elementos e expressões da linguagem
popular, no âmbito do vocabulário, propiciando a criação
de um fabulário nacional; pelo enriquecimento do vocabulário
com a soma de expressões populares e neologismos, privilegiando,
inclusive, a afetividade da mensagem; pela incorporação de
onomatopéias como recurso revelador da desconstrução
lingüística do texto e valorizador da expressividade e, finalmente,
pela inauguração de nova relação com o leitor,
transformando-o em interlocutor. No plano ideológico, o desejo renovador
incita o senso crítico do leitor, levando-o a rejeitar idéias
pré-concebidas; propicia a discussão entre personagens adultas
e crianças, permitindo o levantamento de problemas sociais, políticos,
econômicos e culturais do país; enfatiza, ao longo das obras,
valores como verdade e liberdade;
provoca, através da valorização da liberdade e
da verdade, o estabelecimento de uma nova moral, distinta daquela que caracteriza
os contos clássicos; propicia a relativização do maniqueísmo
advindo da moral absoluta; leva à aceitação de uma
moral pragmática e racionalista e instaura, ao apontar erros às
crianças para torná-los passíveis de correção,
uma moral de situação, alterando a visão tradicional
de valores como liberdade e verdade.
Neste caminho que nos leva a um breve olhar sobre a fábula em
Lobato,
devemos pensar na adaptação como processo característico
da produção literária do escritor, não só
no caso específico do reaproveitamento das narrativas de Esopo e
La Fontaine como também na reciclagem de elementos do folclore e
da tradição popular, cujos exemplos podem ser dados pelas
presenças da Cuca e do Saci, principalmente, nas narrativas do Sítio;
pela adaptação de obras destinadas, na sua origem, ao público
adulto, como o D. Quixote ou, ainda, nas modificações
mais acentuadas, através de cortes, explicações e
simplificações, como se pode ver em Peter Pan.
Fábulas adaptadas: amoras sem espinhos...
Antes de discorrermos sobre os aspectos da adaptação das
fábulas em
Lobato, parece interessante que conheçamos um pouco o gênero,
observando aspectos relativos ao seu conceito e estrutura.
Forma literária específica, a fábula constitui-se
como narrativa curta, onde
as personagens, via de regra, são animais, cujas ações,
alegóricas, encerram um princípio moral, ético ou
político. Segundo La Fontaine (s/d), compõe-se de corpo e
alma, ou seja, da narrativa e da verdade geral que a encerra. Sua estrutura
peculiar justifica a dificuldade de propor, hoje, a leitura desse tipo
de narrativa para a criança e para o adolescente. Como no drama,
observamos o predomínio da unidade de tempo, lugar e ação,
uma vez que o gênero pede apenas um conflito, resultando uma narrativa
concisa e sóbria. Além disso, possui um esquema geral que
se resume em ação/reação ou discurso/contra-discurso,
ou ainda um mais amplo como situação-ação/reação-resultado.
No que se refere à linguagem, a fábula deve primar pela
objetividade, o que
explica a ausência da descrição, com o predomínio
do diálogo, seja direto,
indireto ou misto, podendo, inclusive, ocorrer o monólogo. A
importância do narrador deve ser ressaltada, uma vez que tanto a
situação quanto o resultado são apresentados por ele,
ficando a ação e a reação por conta das personagens,
por meio do diálogo. As personagens, em número reduzido,
caracterizam-se sempre como estáticas ou planas, pois não
crescem aos olhos do leitor, não passam por um aprendizado. São
preferencialmente animais porque, entre outras razões, as ações
estabelecidas entre o comportamento humano e o animal são mais facilmente
reconhecidas como, por exemplo, a astúcia da raposa e a ingenuidade
do cordeiro.
Isto posto, passamos a considerar o que fez Lobato com o gênero.
Para
tanto, tomamos a fábula A cigarra e a formiga, de La
Fontaine, bastante
conhecida por todos e A cigarra e as formigas, de Monteiro Lobato
que, já no título, indicia novidades. A fábula de
La Fontaine, composição em versos, traduzidos por Bocage,
revela, através do esquema
Situação/Ação/Reação/Reação/Resultado,
a postura valorizadora do trabalho e da produção capitalista
e mercantilista do momento, uma vez que o trabalho dos operários
era de suma importância para o crescimento das manufaturas no mundo
de então. O narrador, com uma visão depreciativa da cigarra
– penúria extrema, a tagarela, narra a fala do inseto – Rogou-lhe
que lhe emprestasse/Pois tinha riqueza e brio/ Algum grão com que
manter-se/Té voltar o aceso estio - mas concede voz à
formiga que, em discurso direto, difunde os valores mais importantes do
relato, ou seja, a moral da fábula: – OH! bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora! Exalta como valor a avareza da formiga
que nunca empresta, / Nunca dá, por isso junta.
O tempo possui papel de destaque na exígua narrativa, pois tem
a função
de exasperar a aspereza da situação e enfatizar a negligência
da formiga.
Polarizado entre dois momentos opostos da natureza, Verão-Fartura/Inverno-Penúria,
corrobora o maniqueísmo da visão utilitarista da sociedade
que castiga todo aquele que se afasta dos padrões estabelecidos,
premiando os que seguem os moldes propostos.
Na adaptação de Lobato, além do título que
já revela um desmonte do
maniqueísmo com que era vista a espécie em La Fontaine,
a fábula é dividida em duas partes: a primeira relata a participação
da formiga boa e, a segunda, a da formiga má. Todavia,
em ambas, devemos ressaltar a figura do narrador do texto. A voz narradora
nas fábulas de Lobato é a de Dona Benta que, como avó
das crianças, privilegia o contar fantasioso e lúdico em
detrimento da preocupação moralizadora como, aliás,
almejava Lobato. Ao iniciar o relato, focaliza também a cigarra,
à semelhança do que ocorre em La Fontaine, mas o faz com
um olhar carinhoso e valorizador das peculiaridades do comportamento do
inseto:
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do
formigueiro. Só parava quando cansadinha... (Lobato, 1970, p.1)
E assim, até o final da narrativa, a cigarra merece o olhar amigo
do narrador
que, aos poucos vai tentando conquistar, como podemos ver pelas marcas
formais do discurso, a atenção e a simpatia do leitor:
pobre cigarra, em seu
galhinho, manquitolando, com uma asa a arrastar, triste mendiga,
a tossir. Além disso, nessa narrativa, a cigarra não
é inativa e dependente, ela pensa e pode ser responsabilizada por
sua própria recuperação, pois ela mesma procura e
encontra uma saída para a situação difícil:
deliberou socorrer-se de alguém. Mas não é
somente a cigarra que é construída de modo diferente; a formiga
também quebra a expectativa, causando o estranhamento no leitor,
já que, ao recordar-se de que a outra cantava enquanto ela trabalhava,
reconhece o valor de seu canto e procura recompensá-la pelas alegrias
que aquela música, cantada pela cigarra nos momentos mais duros
de seu trabalho, lhe proporcionava. Ao final da fábula, há
o reconhecimento, inclusive, da atividade da cigarra como profissão:
voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
Já no segundo relato, há como que um acirramento das agruras
da cigarra,
o que pode ser observado principalmente pelo ambiente que, ao contrário
da narrativa anterior, é claramente marcado pela distância
e dificuldade: os fatos ocorrem na Europa, em pleno inverno. A focalização
inicial do narrador incide sobre a formiga má, carregando nos aspectos
negativos de sua construção: Não soube compreender
a cigarra, com dureza a repeliu de sua porta. O posicionamento da voz
narrativa, francamente contrária às atitudes da formiga,
revela simpatia pela cantora, o que pode ser observado também pelo
modo como o narrador chama a atenção do leitor para a maldade
da usurária:
Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou – emprestado,
notem! – uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos
aquela comida de empréstimos, logo que o tempo o permitisse.(Lobato,
1970, p. 4)
A situação da pobre cigarra mexe tanto com os sentimentos
do narrador,
no caso Dona Benta, que ela não se contém e chama diretamente,
à moda de Machado de Assis, a atenção de seu leitor.
Além disso, focalizando internamente a formiga, não se furta
a emitir um juízo extremamente negativo a respeito de seu caráter,
ressaltando atitudes decorrentes dos mais mesquinhos sentimentos:
Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso,
invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra
por vê-la querida de todos os seres. (Lobato, 1970, p. 4)
Assim, embora o resultado desta narrativa de Lobato seja semelhante ao
da
fábula de La Fontaine, uma vez que a pobre cigarra tem o mesmo
fim trágico, há entre essas narrativas uma profunda diferença
no modo de narrar. Isto porque a focalização do narrador,
francamente crítica em relação às atitudes
da formiga, acaba formando a opinião do leitor, levando-o a refletir
sobre as relações humanas representadas na narrativa e adotando
uma atitude simpática à cigarra:
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera
o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música
do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da
formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?
(Lobato, 1970, p. 4)
Finalmente, as duas narrativas se fecham com uma máxima, que não
se apresenta como uma sentença moral, mas como uma metáfora
valorizadora da arte: Os artistas – poetas, pintores, músicos
– são as cigarras da
humanidade.
Devemos ressaltar, ainda, outro aspecto interessante na adaptação
da
fábula por Lobato. Como Dona Benta conta as histórias
às crianças e estas têm liberdade de opinião,
as atitudes dos insetos são questionadas pelas personagens e aí,
justamente nessa recepção crítica, reside o fator
de maior responsabilidade pelo caráter emancipador da narrativa
lobatiana. Desse modo, tanto a intromissão de Emília, de
Narizinho ou de Pedrinho quanto o ponto de vista do narrador, no caso a
avó das crianças, podem ser considerados aspectos inovadores
na fábula lobatiana:
–Esta fábula está errada! –gritou Narizinho. Vovó
nos leu aquele livro do Maeterlinck sobre a vida das formigas – e lá
a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos
que existem. Formiga má como essa nunca houve. (Lobato, 1970, p.4)
A hora e a vez da cigarra...
Além desses aspectos inovadores na estrutura das fábulas
tradicionais,
consideramos outro modo de adaptação do gênero,
levado a efeito por Lobato. Se nas fábulas, ao término da
narrativa, as crianças do Sítio falam, comentam e criticam
a atitude da formiga má, desmanchando esquemas maniqueístas
propostos pelos textos de La Fontaine, em Reinações de
Narizinho, com o auxílio do menino invisível e do pó
de pirlimpimpim, elas chegam ao país das fábulas para observar
in loco, e com o acompanhamento do escritor francês, o desenrolar
das desventuras da cigarra. Mas se ao ouvirem a fábula contada por
Dona Benta as crianças apenas opinam, ali, no mundo das fábulas,
a ação é que vai fazer a diferença. Também
a estrutura desta narrativa é mais elaborada, uma
vez que, num processo de “bricolage”, duas histórias caminham
intercaladas: as aventuras das crianças fora do Sítio e os
fatos da fábula tradicional. Desde o início, porém,
há dois pontos de vista contrastantes: o do fabulista, agora personagem
lobateana, visivelmente favorável à formiga e ao modelo produtivo
que ela representa e o do narrador, colado ao das demais personagens, especialmente
ao modo de olhar de Emília. A visão de La Fontaine continua
a mesma, pois, para ele, enquanto os artistas, boêmios, vivem em
lazer permanente (bom tempo, sol quente, verão) as formigas
têm sua admiração já que simbolizam o trabalho
incessante e a moral positivista predominante:
– Gosto do canto das cigarras – disse ele. – Dá-me idéia
de bom tempo, sol quente, verão. Este inseto é um pouco boêmio
como em geral todos os cantores.
[...]
[...] Já escrevi uma fábula sobre a cigarra e a formiga,
que é outro inseto muito curioso, símbolo do trabalho incessante.
[...] São insetos [as formigas] de alta inteligência. A
muitos respeitos a formiga está mais adiantada que nós, homens.
Há mais ordem e governo na sociedade delas. São mais felizes.
(Lobato, 1984, p. 262)
Para desfazer a ótica utilitarista de La Fontaine, o narrador conta,
como
sempre, com a espevitada Emília e sua canastrinha de idéias:
– Felizes! –
exclamou Emília com carinha incrédula. – Bem se vê
que o senhor nunca sentiu o horrível cheiro da bebida que Dona Benta
costuma dar a elas lá no sítio, um tal formicida... (Lobato,
1984, p. 262)
Acompanhadas do senhor de La Fontaine, os netos de Dona Benta
observam as cenas por ele descritas anteriormente, carregadas, agora,
dos
sentimentos e da afetividade da visão infantil em favor da pobre
e sofredora
cigarra. Se os fatos continuam os mesmos; muda, entretanto, a focalização.
A cena se apresenta, então, sob a visão das crianças,
francamente favorável à cigarra:
Todos se calaram, imóveis em roda do formigueiro. A célebre
cigarra tuberculosa, que tossia, tossia, tossia, vinha chegando, embrulhada
no seu xalinho esfarrapado. Vinha de rastos, como quem está nas
últimas, a morrer de fome e de frio.
[...]
A cigarra bateu e ficou esperando, toda encolhida. Instantes depois
apareceu uma formiga coroca, sem dentes, com ares de ter mais de mil anos.
Era a porteira da casa e rabugenta como ela só. Abriu a porta e
disse, na sua voz rouca de séculos:
– Que é que a senhora deseja? (Lobato, 1984, p. 263)
Podemos perceber, inclusive, que, ao intensificar as agruras da cigarra
e a rabugice da formiga, o narrador, mais que expor o estado lamentável
das personagens, pretende veicular uma nota crítica às tais
histórias emboloradas, ressaltando a antigüidade da fábula.
Nesse sentido, vale apontar o humor com que narrador trata a questão
da dependêndia feminina quando, a formiga, negando-se a atender ao
pedido da cigarra, sugere-lhe como solução a casa do sogro,
numa clara referência à visão do casamento como muleta
para a mulher, que não é capaz de andar pelas próprias
pernas: Se está doente, vá para a casa de seu sogro.
A cigarra lobateana, muito emancipada para os padrões vigentes à
época de La Fontaine – cantadeira e sem marido –, sofre, justamente,
as conseqüências dessa autonomia. E é em função
do caráter passadista da narrativa que o narrador altera, através
da ação de Emília, o resultado da fábula, começando
pelo fato de que a cigarra assume sua independência, reconhece e
valoriza sua função artística:
– Perdão – disse a triste mendiga. – É que não
tenho casa, nem sogro, e estou morrendo de fome e de frio. Se a senhora
não me dá uma folhinha para comer e um cantinho para me abrigar,
certo que morrerei à mingua.
– É o melhor que tem a fazer – respondeu a formiga. – Que fazia
no bom tempo?
– Eu? Eu cantava, Senhora Formiga. Sou cantadeira de nascença.
(Lobato, 1984, p. 263)
Ao levar literalmente a porta no nariz, a cigarra ia pendendo para
trás para morrer quando Emília a segurou e, após
ajudá-la a refazer-se
fisicamente, exortou-a a preparar uma boa forra para a formiga.
E a cigarra não ficou à espera, também fez sua parte,
agindo: comeu as folhinhas; aqueceu o corpo na fogueirinha
e sarou da tísica. A boneca pediu ao inseto que batesse novamente
na porta da formiga e, quando a pobre já ia levando outra sova,
puxou a antipática pela perna seca, dizendo:
– Chegou tua vez, malvada! Há mil anos que a senhora me anda
a dar com essa porcaria de porta no focinho das cigarras, mas chegou o
dia da vingança. Quem vai levar porta no nariz és tu, sua
cara de coruja seca!
E, voltando-se para a cigarra:
– Amor com amor se paga. Eu seguro a bruxa e você malha com a
porta no nariz dela. Vamos!
A cigarra cumpriu a ordem, e tantas portadas arrumou no nariz da formiga,
que a pobre acabou pedindo socorro ao Senhor de La Fontaine, seu conhecido
de longo tempo. (Lobato, 1984, p. 265)
Entretanto, se as crianças agem radicalmente em defesa da cigarra,
no
momento certo, o narrador, numa atitude muito clara de valorização
do gênero, intervém e, procurando preservar a narrativa original,
dá voz ao fabulista francês, que reconhece, inclusive, o merecimento
do castigo aplicado à formiga. Parece evidente que, para o narrador,
para que a narrativa adaptada tenha sentido, é preciso conservar
e difundir também sua matriz:
– Basta, bonequinha! – disse ele. - A formiga já sofreu a sova
merecida. Pare, senão ela morre e estraga-me a fábula. (Lobato,
1984, p. 265)
Como vimos, o que era apenas um projeto em 1916, torna-se realidade.
Lobato, empenhado em apanhar as amoras na moitas espinhentas e fazer
com elas uma deliciosa geléia, em transformar a literatura consumida
pelos pequenos leitores brasileiros, retoma as fábulas emboloradas
e, com pitadas de irreverência, humor e ludismo, revigora o gênero,
adaptando-o de duas maneiras. No primeiro caso, a fábula é
narrada às crianças pela voz de Dona Benta que, com uma visão
francamente favorável ao inseto oprimido, procura desmanchar os
esquemas maniqueístas da narrativa tradicional; além disso,
as crianças, ao final do relato, opinam sobre a possibilidade de
alteração da história e criticam as atitudes que consideram
errôneas. No segundo modo, além da voz, as crianças
se deslocam até o mundo das fábulas para, através
da ação, modificar as atitudes das personagens e, conseqüentemente,
o resultado do esquema moralista proposto pela narrativa de La Fontaine.
Enfim, em ambos os casos, e no confronto com a fábula tradicional,
o leitor infantil pode não só se reconhecer nas atitudes
das personagens como apreender, de modo produtivo, crítico e, sobretudo,
prazeroso, os mundos engendrados pela genialidade de Monteiro Lobato.
Referências bibliográficas
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infantil brasileira em formação. In:
ZILBERMAN, Regina (org.) Literatura
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Paulo: Ática, 1982.
FILIPOUSKI, Ana Maria. Monteiro
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ZILBERMAN, Regina. A literatura
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1982.
Alice
Áurea Penteado Martha es profesora de la Universidade Estadual
de Maringá, en Paraná, Brasil. Doctora en Letras, en el área de Literatura Brasileña. Coordinadora del Programa de Posgrado Maestría en Lingüística Aplicada. Miembro del Grupo Académico Prolectura.
apmartha@uol.com.
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